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TRIBUNA

Uma relação nova, profunda e especial

Vamos deixar a UE, mas não vamos deixar a Europa, e queremos continuar sendo sócios implicados e aliados de nossos amigos no continente

A primeira-ministra britânica, Theresa May, sai de sua residência no número 10 de Downing Street em Londres
A primeira-ministra britânica, Theresa May, sai de sua residência no número 10 de Downing Street em Londres REUTERS

Enviei a Donald Tusk uma carta formal que ativa a decisão democrática tomada no ano passado pelo povo do Reino Unido ao votar de maneira clara a favor de sair da União Europeia.

Neste momento de profunda relevância para meu país, quero assegurar que esta decisão não constitui um rechaço aos valores que compartilhamos como concidadãos europeus. Tampouco é uma tentativa de prejudicar a União Europeia ou qualquer um dos seus Estados membros. Pelo contrário, o Reino Unido quer que a UE tenha sucesso e prospere.

Nosso referendo é um voto a favor de restaurar nossa autodeterminação nacional, tal qual a vemos. Deixaremos a UE, mas não deixaremos a Europa, e queremos continuar sendo sócios envolvidos e aliados da Espanha e de nossos demais amigos no continente.

Esperamos poder manter uma relação profunda e especial com toda a União Europeia. Essa relação deveria incluir a cooperação econômica e a de segurança

Nossa estreita relação se personifica nos profundos laços que unem os nossos povos. Há mais de 130.000 espanhóis que residem no Reino Unido e oferecem uma enorme contribuição à nossa economia e sociedade, enquanto 18 milhões de britânicos viajaram à Espanha em 2016 – uma quarta parte do total de turistas na Espanha. Valorizamos enormemente esta relação e a amizade que nos une.

Como o amigo e vizinho mais próximo da Europa, esperamos poder manter uma relação profunda e especial com toda a União Europeia. Essa relação deveria incluir a cooperação econômica e a de segurança, já que resulta em benefício do Reino Unido, da Espanha, da União Europeia e do mundo em geral.

Queremos nos assegurar de que a Europa continue sendo forte e próspera, que seja capaz de projetar seus valores, liderar no mundo e se defender das ameaças à sua segurança, e queremos que o Reino Unido desempenhe seu papel em alcançar esses objetivos.

Por isso, encaramos esse diálogo de maneira construtiva, com respeito e com um espírito de cooperação sincera. Escutamos nossos homólogos europeus e respeitamos sua postura. Por esse motivo, por exemplo, o Reino Unido não pretende continuar no mercado único, já que nos deixaram claro que isso implica aceitar as “quatro liberdades”. Entendemos que estas são indivisíveis e que não é possível “escolher entre elas” e, por isso, aspiramos a ter o maior acesso possível ao mercado único mediante um novo acordo de livre comércio audaz e ambicioso.

Não há nenhum motivo para não podermos obter uma nova relação, profunda e especial, entre o Reino Unido e a UE, que funcione bem para todos

Igualmente, entendemos que é preciso haver consequências para o Reino Unido ao sair da UE: sabemos que perderemos influência sobre as normas que afetam a economia europeia. Também sabemos que as empresas britânicas terão que se ajustar a normas estabelecidas por instituições às quais já não pertenceremos, assim como ocorre com as empresas britânicas que comercializam em outros mercados. Aceitamos.

Mas não há nenhum motivo para não podermos obter uma nova relação, profunda e especial, entre o Reino Unido e a UE, que funcione bem para todos.

A relação comercial entre o Reino Unido e a Espanha chega a 46 bilhões de euros [155 bilhões de reais] por ano. O Reino Unido é o principal destino dos investimentos espanhóis na Europa, ao passo que há 700 empresas britânicas investindo na Espanha. Por isso, é do interesse de todos que a relação entre o Reino Unido e a UE permita às respectivas empresas terem a máxima liberdade. Todos sairíamos prejudicados se fossem erguidas barreiras comerciais desnecessárias.

Estamos convencidos de que será possível chegar a um acordo no prazo previsto, e de um modo que reforce os valores liberais e democráticos europeus que todos compartilhamos

Do mesmo modo, devemos continuar forjando uma cooperação o mais estreita possível que proteja nossos cidadãos, algo cada vez mais importante em um mundo cada vez mais instável. Todos enfrentamos os mesmos desafios, o terrorismo e o extremismo, como ficou muito patente com o abominável atentado em Londres na semana passada, no qual morreu tragicamente uma cidadã britânica de origem galega, mãe de dois filhos.

Quero que a nova relação com a UE seja a mais estreita possível neste âmbito, seja quando se tratar de intercambiar informações entre nossos corpos de segurança ou de trabalhar juntos para protegermos as fronteiras europeias.

Essa relação profunda e especial se reveste de tal importância que estamos convencidos de que será possível chegar a um acordo no prazo previsto, e de um modo que reforce os valores liberais e democráticos europeus que todos compartilhamos e dos quais o mundo necessita, agora mais que nunca.

Continuaremos desempenhando nosso papel de garantir que a Europa se mantenha forte e próspera, e com esta relação nova contribuiremos para a segurança e o poder global do nosso continente, pelo bem de todos.

Theresa May é a primeira-ministra do Reino Unido.

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