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EDITORIAL

Precariedade normalizada

A precariedade no emprego se transformou em fator estrutural da economia mundial; isso é o que preocupa, não a robotização

Greve no aeroporto de Berlim, nesta sexta.
Greve no aeroporto de Berlim, nesta sexta. EFE

Há um negócio oculto nos bastidores da educação profissional: adivinhar (porque é isso, no fundo) qual será o setor que oferecerá melhores oportunidades de emprego no futuro. Quem hoje precisa escolher como ganhar a vida percebe que o mercado de trabalho já não é o mesmo do que era há apenas 10 anos. O motivo é que diminuiu o número de postos de trabalho estáveis e razoavelmente remunerados, inclusive para as elites melhor formadas nas profissões mais qualificadas. Este é um efeito daninho do crash de 2007. Porque, em termos de probabilidade, a precariedade se transformou em fator estrutural da economia mundial. Com o pretexto da excepcionalidade trazida pela crise, os salários mais baixos e a contratação temporária abrem caminho para se tornar a normalidade estabelecida do mercado de trabalho. Essa normalidade do precário não será uniforme em todos os países, é claro; dependerá da resistência ou das opções oferecidas pela legislação de cada país.

Isso é o que preocupa, não a robotização. As mudanças tecnológicas têm efeitos que agem como grandes deslocamentos de massas, mas, uma vez que acabam por ser compensadas em médio prazo, são de natureza mais benigna do que a dos espasmos regressivos do mercado de trabalho. Na bola de cristal se veem hoje contornos difusos: salários mais baixos, desregulamentação trabalhista que combinará mais precariedade e talvez o surgimento de mercados negros de trabalho nos quais as vagas sejam preenchidas sem previdência social, nem impostos, nem segurança. A tarefa principal dos legisladores nacionais e internacionais tem de ser hoje a de impedir que esses riscos cristalizem-se em situações irreversíveis. É mais urgente deter o emprego precário do que adivinhar como será o trabalho das próximas décadas. Entre outras tantas razões porque durante os últimos 30 anos se repetiu à exaustão que o emprego do futuro (hoje presente) estaria nos mercados digital, eletrônico e, em geral, de tecnologias da informação; mas a economia espanhola, por exemplo continua exigindo garçons e pedreiros. Os engenheiros e especialistas em big data vão embora para Alemanha, Reino Unido e Finlândia.

Não há que se opor ao consenso quanto à perspectiva de trabalho: mais profissionais de tecnologia da informação, mais especialistas em big data, mais técnicos em desenvolvimento comercial digital e mais analistas em assuntos financeiros e legais. Provavelmente, se descontarmos as mudanças ou as inovações nos títulos, são os mesmos que se anunciavam antes da crise. O que conta aqui e agora são os detalhes: quem e como será financiada a formação nos novos desenvolvimentos profissionais? As finanças públicas espanholas, por exemplo, carecem de recursos públicos, graças a sistemáticas, irresponsáveis e daninhas reduções de impostos, para colaborar ou fazer frente ao esforço que sem dúvida corresponderá às famílias. Se esta suposição for correta, algumas sociedades vão se ver diante de uma brecha abismal entre quem pode pagar estudos de graduação e pós-graduação com probabilidade de emprego e quem terá de recorrer a profissões ou ensinos depreciados porque não oferecem futuro profissional. E, já colocados, incentiva-se na Espanha o desenvolvimento de empresas tecnológicas ou no futuro continuará sendo mais rentável montar uma empresa de construção com o conselho municipal de urbanismo como sócio invisível? Se nem sequer se formam técnicos em turismo!

Há um equilíbrio social entre o que se espera do futuro (tecnologia, digitalização) e o que é imperativo salvar do presente. Se a filosofia e a literatura não forem salvas, não demorarão a aparecer graves distorções no big data e nas telecomunicações.

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