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O assédio do Podemos

Pablo Iglesias e seu partido precisam respeitar a liberdade de informação

Ramón Espinar (esquerda) e Pablo Iglesias, em uma reunião com membros de Podemos em Madri no dia 3 de março. EFE

A liberdade de informação faz parte dos princípios básicos das democracias quando elas funcionam realmente dessa forma e não como autocracias disfarçadas. É muito grave menosprezar esse critério, protegido pela Constituição como um dos direitos fundamentais dos espanhóis. Por isso, o protesto da Associação de Imprensa de Madri (APM) por causa dos vários jornalistas que pediram proteção por se sentirem “assediados e pressionados” por Podemos, apoiado em testemunhos e provas documentais, que levaram a APM a exigir que este partido “pare de uma vez por todas com a campanha sistemática de assédio pessoal e nas redes que está realizando contra profissionais de diferentes meios de comunicação, com o objetivo de amedrontar e ameaçar quando está em desacordo com as informações publicadas”.

Vários porta-vozes de Podemos se apressaram a dizer que não reconhecem essa denúncia, mas há muitos rastros. As pressões agora são diferentes das que eram feitas pelo próprio Pablo Iglesias quando acusava em público de mentirosos os jornalistas que cobrem a atividade de Podemos — para, assim, crescer em suas empresas. Segundo a denúncia da Associação da Imprensa de Madri, há um bombardeio de mensagens que tentam desqualificar ou ridicularizar jornalistas, origem da proteção pedida por um grupo de afetados.

O problema de fundo é que Podemos, e mais concretamente seu líder, considera os meios de comunicação um poder não eleito; e que a existência de meios independentes não parece para ele, na verdade, o estado natural das coisas. Iglesias, sem dúvida um comunicador nato, é em grande parte fruto dos meios de comunicação, e não os criticava quando estes abriam seus programas ou páginas, nos quais construiu sua imagem pública. Agora que Podemos se transformou na terceira força política do país, logicamente está submetido a um questionamento maior dos meios, que — não poderia ser diferente! — não escondem as dificuldades que o partido está atravessando, suas lutas internas pelo poder ou as diferenças entre os projetos políticos de suas várias correntes.

Os choques e as críticas entre políticos e meios de comunicação não são novidade. O problema é que Iglesias — como Trump nos EUA — considera que os meios são poderes de facto que tentam influenciar e condicionar sem ter recebido o mandato das urnas. Jamais foi colocado que as linhas informativas e editoriais dos meios de comunicação das democracias avançadas, do The Washington Post ou The New York Times, até os europeus mais sérios, tenham a necessidade de adquirir uma legitimidade eleitoral que já é dada ou negada a eles pela sua audiência de forma cotidiana, como um contrapoder da sociedade civil. Não entender isso é impróprio do líder do terceiro partido espanhol e de seus militantes.

E se o futuro que Podemos ambiciona é o de que a informação deve ser responsabilidade do poder público, só é preciso dar uma olhada no que acontece na RTVE a favor do PP, ou na TV-3 do movimento independentista, para compreender a razão de rechaçar com energia o excesso de dirigismo e manipulação das cúpulas políticas, sejam de partidos tradicionais ou venham das novas formações.

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