Seleccione Edição
Entra no EL PAÍS
Login Não está cadastrado? Crie sua conta Assine

República Federativa do Glitter

O glitter se tornou um traço universal do Carnaval, em forma de contato e em memória

Segundo o Google Brasil, as buscas sobre o assunto sobem 37% quando chega fevereiro

O bloco do Cordao de Boitata, em fevereiro de 2017
O bloco do Cordao de Boitata, em fevereiro de 2017 REUTERS

Iris tem 30 anos e umas seis cores no rosto: dourado, prateado, azul, rosa, verde e uma mancha vermelha na bochecha esquerda. É verdade que entre as centenas de milhares de pessoas que dançam neste entardecer de domingo no Largo da Batata, em uma das muitas celebrações prévias ao Carnaval em São Paulo, há gente com mais glitter no corpo, mas pelo menos Iris sabe de onde vem cada tom. “O dourado e o prateado eu pus antes de vir, olha”, diz, e abre sua bolsa: tem vários potes dessas cores. “Antes, pedi a não sei que menina com unicórnio que eu vi que me emprestasse esses outros.” Aponta para a manchona vermelha no rosto: “E isso foi ele que fez em mim”. Indica um homem enorme sem camisa, com jeito de ter tomado vários tragos a mais, que tem um pote de glitter em gel vermelho em uma mão; com a outra, tenta pintar as garotas que lhe agradam, para chamar a atenção delas. Elas fogem no toque, ele ri. É uma imagem cada vez mais comum no crescente Carnaval. Homens bêbados que tentam tocar as mulheres, e, sobretudo, o glitter. Muito, muito glitter.

"É nestes dias que o mauricinho do Leblon sai para dançar com o morador  da favela; o glitter nos torna um pouco mais iguais"

O glitter é colocado ao redor dos olhos e na testa ou na barba, no caso dos homens. O glitter é passado em você pelos amigos, da mesma cor que eles usam, para que você se identifique com o grupo; mas o glitter também é colocado por desconhecidos, que iniciam a conversa oferecendo o dedo pintado. O glitter, como a fogosidade destas festas, gruda em quem não a traz de casa. Neste domingo, um jovem moreno tem os lábios cheios dele; do mesmo tom que o elaborado desenho que traz no rosto a garota que está devorando aos beijos. Há bebês negros com glitter e bêbados brancos com glitter. Avós com glitter. Turistas. Em uma sociedade tão segregada e impossível de abarcar como a brasileira, o glitter se transformou em um traço universal dos blocos. “É nestes dias que o mauricinho do Leblon [zona de classe alta do Rio de Janeiro] sai para dançar com o pobre da favela; o glitter nos torna um pouco mais iguais”, pondera Danielo, branco, de 29 anos. Sua fantasia é de sereia. Acompanha o torso cheio de glitter prateado.

República Federativa do Glitter

Uma mudança no Carnaval

Estas cifras nem sempre foram tão grandes, a começar pelas dos festejos de rua. Nos últimos anos, o Carnaval começou a ganhar força nas cidades que geralmente só o viam pela televisão. Na tradicionalmente entediante cidade de negócios de São Paulo, no sábado a Prefeitura esperava cerca de 250.000 pessoas em pouco mais de 60 blocos. Acabaram contando 750.000. “A situação saiu um pouco do nosso controle”, admitia no domingo o secretário de Transportes. Quando o Carnaval acabar, São Paulo terá presenciado 495 blocos, 60% a mais que no ano passado. Mais que em todo o país.

E este renascer veio acompanhado do fervor da glitter, algo que, como ocorre com outras tantas religiões brasileiras, tem uma origem incerta e um alcance difícil de quantificar. Mas, nos cálculos do Google Brasil para esta reportagem, as buscas sobre o assunto aumentam até um 37% quando chega fevereiro, sobretudo nas cidades costeiras. A empresa Colormake, uma das maiores produtoras de maquiagem artística do país, afirma que a demanda de glitter foi nos meses de janeiro e fevereiro “notavelmente” maior que nas mesmas datas em 2015. “Não sei por que virou moda. Antes o glitter era visto somente nos blocos mas alternativos. Foi em 2016 que já admitimos que havia um boom”, explica Naiara Candido, publicitária de Pernambuco, que em outubro deixou seu trabalho em uma agência para vender glitter. Somente em Recife vendeu 130 quilos nos últimos meses. Também graças ao infalível senso de oportunidade brasileiro, é possível ver nos blocos do Rio de Janeiro estilistas de glitter, entusiastas que, por três reais, maquiam quem se sente menos capaz de fazer isso.

Bloco da Cordão de Boitata
Bloco da Cordão de Boitata REUTERS

Muita oferta, ainda mais demanda

“Em São Paulo poderíamos ter desses estilistas”, suspira Laís, uma mulher que acaba de dedicar seu horário de almoço à árdua tarefa de comprar glitter dias antes do Carnaval em uma das lojas Abracadabra, da Rua 25 de Março. Se há um lugar do mundo que denuncia a pressa com que o glitter entrou na moda são estes labirintos de máscaras de plástico, perucas fosforescentes e tiaras brilhantes. Estão divididos em seções: ali a que vende fantasias de crianças, aqui a de confete e serpentina e mais adiante, atrás da muralha de pessoas aglomeradas sobre o balcão, está a que tenta fornecer glitter a uma centena de clientes. “O burburinho começou na segunda semana de fevereiro”, admite a funcionária, sem deixar de colocar material na vitrine.

As compras são bem parecidas: vários potes de 3,5 gramas de uma só cor especial (violeta, branco ou laranja) por 3,5 reais e um pacote de 10 potes de cores básicas (vermelho, azul, verde…) por 14,20 reais. A cor mais procurada este ano é o violeta. Laís não tem essa cor entre a carga de 30 reais que guarda na bolsa, mas esta é sua terceira tentativa de comprar aqui. Leonardo, de 25 anos, comprou 50 reais. “É glitter pra caramba”, admite, um tanto culpado. “Mas Carnaval tem que ter glitter.”

Ilha Paqueta, no Rio de Janeiro
Ilha Paqueta, no Rio de Janeiro AP

O bloco onde Iris estava tem glitter e ainda brilha. Resta um último raio de sol que se reflete nos rostos de uma menina e sua mãe, nas costas descobertas de um homem grandalhão acima do peso, na blusa da pobre infeliz que acaba de passar ao lado do bêbado do gel de glitter vermelho. Gente sem nada em comum, a não ser a forma como oferecem seus potes de 3,5 gramas a desconhecidos, como quem convida a uma droga sintética. Menos Rafael, de uns 29 anos, calvo e grande como um armário, que já se distanciou do barulho. Foi para seu carro, algumas ruas mais adiante, pegou uma toalha vermelha e está esfregando a cara. “Não quero ter nenhum resto de glitter quando entrar no carro. Esse diabo de coisa gruda em tudo. Vou ficar tirando glitter do assento até abril”, grunhe. Joga a toalha no chão. Está brilhante e imprestável. “Depois do Carnaval começa a época em que você entra numa reunião e depois de uma hora alguém te faz um sinal de que você tem glitter em uma sobrancelha.”

Danilo, a sereia; íris, a das seis cores; Leonardo, o dos 50 reais, todos contaram exatamente essa mesma história. Alguns sorriem, enternecidos pela cumplicidade desse gesto, com o alívio de que, quando o Carnaval passar, e o rico voltar com os ricos e o pobre com os pobres, e se encontrarem em um escritório, ainda reste um resquício brilhante e descarado do momento em que o país se disfarçou no que não é e seus cidadãos se sentiram iguais.