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Dois times modestos tentam reescrever a história da copa mais antiga do mundo

Lincoln City e Sutton United têm a chance de se tornarem os primeiros clubes da quinta divisão inglesa nas quartas de final da Copa da Inglaterra

Paul Doswell, técnico do Sutton United, posa na entrada do campo.
Paul Doswell, técnico do Sutton United, posa na entrada do campo. Getty Images

A Copa dos sonhos acumula 146 anos de utopias realizadas e é a mais antiga do mundo. Trata-se da Copa da Inglaterra, oficialmente F.A. Cup, uma competição aberta a equipes de dez categorias nas quais ainda dá para sentir cheiro de cânfora, as partidas transcorrem diante de arquibancadas antiquadas e animadas, e ocorrem façanhas guardadas para sempre na memória do torcedor. O Lincoln City e o Sutton United jogam a cada fim de semana no quinto escalão do futebol inglês, mas nos próximos dias sairão do seu cotidiano cinzento para se aproximar de algo mais brilhante. Os primeiros visitam o Burnley no sábado (10h30, hora de Brasília), os segundos recebem o Arsenal na segunda-feira (16h55). Se vencerem, terão superado um teto até agora intransponível, tornando-se as primeiras equipes de ligas não profissionais a alcançarem as quartas de final da Copa da Inglaterra. Estão a três passos de Wembley, onde apenas sete equipes do seu nível conseguiram chegar até hoje. A que esteve mais perto de superar essa etapa foi o Blyth Spartans, hoje na sétima divisão, que há 40 anos conseguiu forçar um jogo de volta (na F.A. Cup a eliminatória é em partida única, com desempate em campo contrário em caso de igualdade).

Lincoln, diabinhos diante do Burnley

Festa dos jogadores do Lincoln City após eliminarem o Brighton.
Festa dos jogadores do Lincoln City após eliminarem o Brighton.

Do feudo do Lincoln City se veem as torres da catedral local, 200 quilômetros ao norte de Londres, em plena campina. Lá se consolida a lenda indomável dos seus habitantes, os imps (diabinhos) que defendem a camisa da sua equipe. Os visitantes chegam à catedral atraídos pela história de um diabinho petrificado em um dos seus capitéis, onde teria ficado preso, diz a tradição, quando Satã os enviou a Lincoln para causar estragos. Mas na catedral teriam enfrentado um anjo que emergiu das páginas de uma Bíblia e os botou para correr. O mais rebelde o desafiou, e o anjo, que devia ter caráter, o transformou em pedra. Os imps modernos estão alterando a lenda para que sejam eles a petrificarem as torcidas, tanto a sua como a alheia. Já derrotaram três clubes de categoria superior, Oldham (da League One, a terceira divisão inglesa), Ipswich (da Championship, a segunda divisão) e Brighton, um dos favoritos para estar na Premier na temporada que vem. Agora vão ao campo de um adversário da categoria principal, o Burnley, que é especialmente forte quando joga em casa.

Apenas oito equipes da Premier entre os 16 sobreviventes

Entre os 16 últimos sobreviventes na atual edição da Copa da Inglaterra, apenas oito jogam a Premier League (primeira divisão). No sorteio, todos caíram emparelhados contra rivais de categorias inferiores. Das 30 últimas edições da competição, os chamados quatro grandes (Chelsea, Arsenal, Manchester United e Liverpool) ganharam 25.

Sábado, 18

10h30. Burnley (1ª) – Lincoln City (5ª)

13h00. Middlesbrough (1ª) – Oxford Utd. (3ª)

13h00. Millwall (3ª) – Leicester (1ª)

13h00. Huddersfield (2ª) – Manchester City (1ª)

14h30. Wolwerhampton (2ª) – Chelsea (1ª)

Domingo, 19

11h00. Fulham (2ª) – Tottenham (1ª)

13h15. Blackburn (2ª) – Manchester Utd (1ª)

Segunda-feira, 20

16h55. Sutton Utd (5ª) – Arsenal (1ª)

Dois irmãos, os Cowley, dirigem a equipe e a levaram à zona de promoção para a League Two (quarta divisão), um status perdido há seis anos – uma tragédia para um clube acostumado a holofotes mais luminosos, mas com um histórico de desastres: é o único da Inglaterra a ter sido eliminado em cinco temporadas consecutivas nos play-offs de ascensão. Foi em meados da década passada, quando tentou subir para a League One. Todo esse fracasso acabou passando uma fatura moral, econômica e esportiva, de modo que o Lincoln caiu em vez de subir, e agora tenta se recompor. A Copa é um magnífico elixir, e Danny Cowley já não encontra palavras para expressar seus sentimentos: “Quando jogamos contra o Ipswich disse que seria como escalar uma montanha, quando enfrentamos o Brigthon, que era como ir à Lua…”. Contra o então líder do Championship, foi uma virada com três gols no segundo tempo, após ir para o intervalo em desvantagem no placar. Contra o Ipswich, o Lincoln forçou o jogo de volta após empatar como visitante, tendo levado mais de 5.000 torcedores consigo. No jogo extra, venceu com um gol nos acréscimos. “Não foi só um trabalho de onze homens”, disse Cowley. “Foram um clube e uma cidade que ganharam esses jogos”, completa.

Não deixa de ser verdade. O Lincoln foi à falência há 15 anos, e 30% de sua propriedade foi distribuída entre seus torcedores, que têm direito a pedir uma reunião com o técnico pelo menos três vezes por ano e controlam dois dos oito assentos no conselho do clube. Há um sentimento de pertencimento que aviva a relação dos torcedores com equipes desse tipo, nas quais não existem distâncias separando-os dos jogadores que defendem seu escudo. No Lincoln, tudo isso se multiplica. “Não temos muita qualidade futebolística, mas nos sobra a humana”, conclui Cowley.

Banho de realidade para o Arsenal em Sutton

Sutton é um bom lugar para se viver. Ou pelo menos é assim que indicam as classificações publicadas sobre índices de qualidade de vida no Reino Unido. A menos de meia hora de trem do centro de Londres, as casas de estilo vitoriano e fachadas de azulejo vermelho se sucedem ao lado do modesto campo de Garden Green Lane. Também não é um bairro exclusivo: proliferam os moradores de classe média e pouco envolvimento com a equipe da região. Mas por trás desse anonimato existe uma orgulhosa história com feitos sempre relacionados à Copa da Inglaterra, uma vitória em uma eliminatória contra o Coventry em 1989, apenas um ano e meio após esta equipe levantar o troféu, um memorável duelo contra o Leeds United de Jackie Charlton, Billy Bremner e Peter Lorimer, a indômita equipe dirigida por Don Revie, que venceu o Sutton por 6x0 em sua visita ao sul de Londres. Esse feito foi superado justamente com uma vitória no mês passado contra o mesmo rival e palco idêntico, mas 47 anos depois. “Deixamos de levar seis gols para ganhar por um a zero. Fizemos algum progresso” brincou ao final da partida o técnico Paul Doswell. Sua equipe só perdeu quatro das últimas 45 partidas que disputou em casa.

Dois times modestos tentam reescrever a história da copa mais antiga do mundo
Dois times modestos tentam reescrever a história da copa mais antiga do mundo
Dois times modestos tentam reescrever a história da copa mais antiga do mundo
De cima para baixo, acesso ao campo do Sutton, vestiário dos visitantes, duchas e vestiário do mandante.
De cima para baixo, acesso ao campo do Sutton, vestiário dos visitantes, duchas e vestiário do mandante.

A peripécia do Sutton United não é entendida sem a figura de Doswell, um empresário do setor da construção, torcedor do Southampton, que ama a essência do futebol sem utilizá-lo como meio para se promover. Não só não recebe salário para treinar a equipe como há um ano e meio emprestou ao clube 600.000 euros (2 milhões de reais) a serem pagos em dez anualidades sem juros para reformar o maltratado gramado de seu campo e substituí-lo por um sintético. Essa decisão impossibilita que a equipe, no meio da tabela da quinta divisão, a Conferência Nacional, possa subir de divisão. No futebol profissional inglês deve-se jogar sobre grama natural. “Se tivéssemos a opção pensaríamos em voltar atrás e trocar a grama, mas agora podemos dar mais uso ao campo para que joguem todas as nossas equipes de base e não perdemos dinheiro por cancelamentos de partidas”, explica Doswell, que se tornou popular nos últimos meses por suas ácidas críticas à BBC, por enquanto resistente a transmitir a todo o país as façanhas do Sutton. “É um órgão público e preferem televisionar uma irrelevante partida do Manchester United do que manter vivo o romantismo da Copa”, lamenta. A equipe de Old Trafford joga no domingo em Blackburn e lá estará a televisão pública, que transmitiu suas últimas 56 partidas na competição. No dia seguinte o Sutton também jogará.

O dinheiro da televisão é ouro para clubes como o Sutton, que trabalham com um orçamento anual de 350.000 euros (1,15 milhão de reais). Nesse ano já receberam quase o dobro dessa quantia graças à Copa da Inglaterra. Mas a Copa começa a ser um problema para os grandes se levarmos em consideração que levantar o troféu em Wembley significa um prêmio de pouco mais de dois milhões de euros (6,6 milhões de reais) e se manter na Premier League (primeira divisão), ou chegar a ela, significa receber, no mínimo, mais de cem (330 milhões de reais). O Leeds, envolvido na batalha de retornar à principal categoria jogou há três semanas em Sutton com uma equipe alternativa na qual até mesmo dois jogadores estreavam. Arséne Wenger deve preservar suas melhores peças no duelo contra o Sutton. Pouco tempo atrás escalar reservas na Copa da Inglaterra era impensável, quase uma ofensa. “Fomos beneficiados, mas às vezes dá a impressão de que a competição é desrespeitada”, diz Jamie Collins, o autor do gol que derrotou o Leeds e fez história para o Sutton. Meio-campista robusto que não conseguiu realizar seu sonho de viver do futebol, Collins treina dois dias por semana como o resto de seus companheiros e ganha a vida como operário na construção. Esteve na partida da segunda rodada eliminatória contra o Cheltenham, um rival da League Two (quarta divisão). 734 pessoas estiveram nas arquibancadas. Contra o Leeds entraram mais de 5.000 e as três senhoras que preparam chá, café e petiscos para os torcedores se viram sobrecarregadas. Ao final da partida uma multidão invadiu o campo de jogo e em coro alertaram: ““We’re on our way to Wembley” (“Estamos a caminho de Wembley”).

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