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Início lamentável

Trump transforma sua conferência de imprensa em um espetáculo grotesco

Donald Trump, durante a conferência de imprensa em Nova York. AP

Faltando apenas uma semana para acontecer uma cerimônia política tão importante como a posse do presidente dos EUA, qualquer ato público envolvendo a pessoa que vai ocupar a Casa Branca nos próximos quatro anos adquire um tom especial. Se, além do mais, este ato coincide com a primeira conferência de imprensa desde a vitória nas eleições de novembro, o que os norte-americanos e o mundo esperam é ver o futuro presidente em um papel quase institucional. Embora ainda não tenha jurado em seu cargo, ele já recebe informações classificadas, faz nomeações e despacha assuntos que não diferem em grande medida do que vai acontecer quando estiver no Salão Oval.

Mas essa expectativa foi destruída nesta quarta-feira durante a primeira aparição de Donald Trump como presidente eleito para a mídia. No meio de uma conferência de imprensa caótica — sua equipe deveria estudar como agem os presidentes eleitos em alguns dos países que Trump tanto despreza — o milionário norte-americano fez o oposto do que é esperado de alguém que está a poucos dias de ocupar uma posição tão importante: foi grosseiro com os jornalistas, atrevido, depreciativo e ameaçador. Trump mostrou que ainda acreditava estar dentro de um dos reality shows que tanta fama geraram, mas que tem pouco a ver com a grande responsabilidade que está enfrentando.

Foi absolutamente impróprio que tenha interrompido uma pergunta e mandasse um jornalista hispânico se calar com um “o senhor é fajuto e dá notícias falsas”; assim como, para se referir a questões graves como a construção de um muro ao longo da fronteira com o México ou a mudança de empresas, suas frases tenham sido encabeçadas por expressões como “eu não quero” ou “não me importa”.

Entrando no fundo de suas declarações, o presidente eleito dos Estados Unidos se mostrou muito mais valentão com os meios de comunicação e a candidata democrata, Hillary Clinton, do que com o presidente russo Vladimir Putin. Apesar de ter assumido que a Rússia pode estar por trás da invasão hacker do partido democrata, minimizou a gravidade dos fatos afirmando que “não foi só a Rússia” que realizou os ataques cibernéticos contra os EUA. Não serve para nada que Trump elogie com frases feitas os serviços secretos norte-americanos se, em seguida, desacredita-os — como tem feito repetidamente neste assunto — com sua atitude.

As ameaças contra a indústria farmacêutica, a referência a “lobbies poderosos” e a menção direta a uma empresa de automóveis que, segundo ele, deverá seguir o mesmo caminho de outras que já anunciaram investimentos milionários nos EUA e desinvestimentos no exterior, casam melhor com um roteiro de cinema sobre o submundo do crime do que em uma intervenção presidencial. Especial menção merece a louca encenação, com uma longa mesa com dezenas de pastas com documentos sobre empresas cuja administração diz que vai renunciar.

Quanto mais Trump se aproxima da Casa Branca, mais fica justificada a preocupação pelo que se avizinha e entende-se menos as tentativas de apaziguamento de alguns Governos como o espanhol.

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