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Bob Dylan: “Teria a mesma chance de ganhar o prêmio Nobel que de pisar na Lua”

Embaixadora dos EUA na Suécia lê o discurso do músico, que no texto afirma que com o prêmio se sente “em companhia muito rara”

Bob Dylan prêmio Nobel de Literatura
Bob Dylan, em julho de 2012 em festival na França. AFP

“Se alguém tivesse me dito que eu tinha a mais remota chance de ganhar o prêmio Nobel, teria que pensar que tinha a mesma probabilidade de pisar na Lua.” Essas foram algumas das palavras com que Bob Dylan, ausente neste sábado da cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo (Suécia), agradeceu pela concessão do maior reconhecimento mundial às letras, pela primeira vez na história dado a um músico.

“Lamento que não possa estar com vocês em pessoa, mas por favor saibam que definitivamente estou com vocês em espírito e honrado por receber um prêmio tão prestigioso. Ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura é algo que nunca poderia ter imaginado ou pressentido”, afirmou em seu discurso o músico norte-americano. Discurso que, em razão de sua ausência, foi lido pela embaixadora dos EUA na Suécia, Azita Raji. Em seu texto, Dylan admite que lhe provoca “uma profunda impressão” se ver junto a “gigantes da literatura” como “Kipling, Shaw, Thomas Mann, Pearl Buck, Albert Camus, Hemingway”. Uma impressão “além das palavras” e que o leva a se sentir “em companhia muito rara, para dizer o mínimo”.

“Não sei se esses homens e mulheres alguma vez pensaram eles mesmos na honra do Nobel, mas suponho que qualquer um que esteja escrevendo um livro, um poema ou uma peça de teatro em qualquer parte do mundo deve acalentar esse sonho secreto em seu íntimo. Provavelmente está enterrado tão fundo lá dentro que talvez nem saibam que está lá”, disse.

Mergulhado desde o final dos anos oitenta no que chama de seu tour interminável, tocando todos os anos por todos os lugares, conforme vai lançando álbuns, Dylan explicou que “estava na estrada” quando recebeu a “notícia surpreendente”. “Demorou mais que alguns minutos para conseguir processá-la corretamente.” O cantor e compositor afirma que então, enquanto meio mundo discutia se ele merecia ou não o prêmio, pôs-se a pensar em Shakespeare. “Acho que ele se considerava um dramaturgo. Suas palavras foram escritas para o palco. Com o sentido de ser falado, não lido. Quando escrevia Hamlet, estou certo de que pensava em muitas coisas diferentes: ‘Quem são os atores adequados para estes papéis? Como devo fazer isto? Quero mesmo localizar isto na Dinamarca?’. Sua visão e suas ambições criativas estavam sem dúvida na vanguarda, mas também havia assuntos mais mundanos que considerava e tratava. ‘Como será o financiamento? Há lugares suficientes para o público? Onde vou conseguir um crânio humano?’ Aposto que o que estava mais longe da mente de Shakespeare era a pergunta: ‘Isto é literatura?’.”

Aspirações

Depois de mais de meio século de carreira e de ter recebido outros prêmios prestigiosos fora do âmbito musical, como o Pulitzer e o Príncipe de Astúrias das Artes, Dylan reconheceu em seu discurso que suas “aspirações” em relação a suas canções nunca “foram tão longe”. “Pensava que podiam ser ouvidas em cafés e bares, talvez mais tarde em lugares como o Carnegie Hall ou o London Palladium. Se realmente me pusesse a sonhar muito, talvez pudesse imaginar chegar a fazer um disco e depois escutar minhas canções no rádio. Isso era realmente o grande prêmio na minha cabeça. Fazer discos e ouvir minhas canções no rádio significava que estava chegando a um grande público e que poderia continuar fazendo o que tinha planejado fazer.”

Após o mistério sobre aceitar ou não o prêmio, Dylan, acusado de irresponsável por demorar tanto para falar sobre o Nobel, agradeceu pela honraria com as seguintes palavras: “São minhas canções que estão no centro vital de quase tudo que faço. Parecem ter encontrado um lugar na vida de muitas pessoas, de muitas culturas diferentes, e sou grato por isso. Mas há uma coisa que preciso dizer. Como artista, toquei para 50.000 pessoas e toquei para 50 e posso dizer que é mais difícil tocar para 50 pessoas. 50.000 pessoas são uma persona singular, o que não é bem o caso com 50. Cada uma dessas 50 tem uma identidade individual, separada, um mundo em si mesmas. Podem perceber as coisas com mais clareza. Sua honestidade e como ela se relaciona com a profundidade de seu talento são postas à prova. O fato de o comitê do Nobel ser tão pequeno não me escapou”.

E, finalmente, com sua particular ironia, o músico deixou que a resposta à maior polêmica já vista em relação à concessão de um Nobel de Literatura fosse dada por outros, exatamente os mesmos que fazem a pergunta: “Mas, como Shakespeare, eu também com frequência estou às voltas com a busca de meus esforços criativos e lidando com todos os aspectos de assuntos mundanos da vida. Quem são os melhores músicos para estas canções? Estou gravando no estúdio certo? Esta canção está na clave correta? Algumas coisas nunca mudam, mesmo em 400 anos. Nem uma só vez tive tempo de me perguntar: Minhas canções são literatura? Por isso agradeço à Academia sueca, tanto por dedicar tempo a considerar essa mesma pergunta quanto, em última instância, por proporcionar uma resposta tão maravilhosa. Meus melhores votos para vocês todos”.

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