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Morre Dario Fo, dramaturgo e crítico do poder político e da igreja

Nobel italiano morreu aos 90 anos vítima de problemas pulmonares

Dario Fo, em sua casa, em 2006.

Dario Fo, dramaturgo e escritor italiano prêmio Nobel de Literatura de 1997, morreu nesta quinta-feira. A notícia, embora temida já há alguns dias, desde que ele foi hospitalizado em Milão com insuficiência respiratória, enche a Itália de tristeza. Em março passado, Fo completou 90 anos sem perder a paixão pelo teatro, a pintura, a escultura e o ativismo que o levou a se tornar uma referência moral de uma esquerda italiana que, como ele mesmo lamentava, morreu no dia em que “se casou estupidamente com o poder”.

Um poder, o da casta política ou eclesiástica, que o Nobel de Literatura continuou a atacar com a mesma força com que, apesar das dificuldades próprias da idade avançada, comparecia diariamente ao seu estúdio de Milão para transmitir sua sabedoria a um grupo de jovens artistas: “Só me interessa trabalhar com os jovens. Dar o exemplo. Isso é o mais importante”.

Nascido em 24 de março de 1926 em Sangiano, pequeno vilarejo de Varese onde seu pai era chefe de estação, Fo estudou na Academia de Bellas Artes de Milão, mas logo dirigiu suas atividades para o teatro, começando a trabalhar na RAI —a televisão pública italiana— como autor e ator de textos satíricos. Desde 1968, na companhia de Franca —sua parceira de vida e de carreira artística— e de Massimo de Vita, Vittorio Franceschi e Nanni Ricordi, fundou o grupo teatral Nuova Scena, com o objetivo de resgatar os valores sociais do teatro. Durante sua longa trajetória, publicou mais de 100 obras teatrais, que ele mesmo costumava dirigir e interpretar, e vários livros. Foi um jogral, um mestre da sátira. Mistero Buffo foi a sua obra-prima, em que ele interpretava, sozinho, vários personagens e demonstrava um grande talento para a mímica. Caberia destacar, também, Ninguém paga, Tutta casa, letto e chiesa, Coppia aperta.

Andava desencantado com a política, mas, apesar disso —ou talvez justamente por isso— não deixou de apoiar até o último momento o Movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo, que via como uma última possibilidade de esperança. Segundo dizia, a tão esperada queda de Silvio Berlusconi não dera lugar a uma nova política na Itália. “Tudo continua quase a mesma coisa”, queixava-se em março passado em seu estúdio de Milão. “É tudo um jogo. O jogo da falsa democracia. A turma de Berlusconi continua por aí. E ele se safou. Matteo Renzi o salvou de ir para a cadeia, livrou Berlusconi de alguns processos muito complicados porque tinha a ver com sexo e o escândalo que isso implica em sua base católica. A Itália se transformou hoje em uma espécie de polenta, tudo se misturou, não há ponto de partida nem de chegada, não existe dignidade”.

Em vários momentos de sua vida, Fo foi um homem aborrecido, mas jamais triste. Costumava dizer que tinha tido uma vida “exageradamente afortunada”.

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