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Decálogo para o San Fermín (em busca da perfeição ao correr dos touros)

Recomendações para quem pretende desafiar os animais nas festas de São Firmino, em Pamplona (Espanha)

Momento do segundo ‘encierro’ da festa de San Fermín.
Momento do segundo ‘encierro’ da festa de San Fermín. EFE

1. Álcool e drogas

O decálogo de normas em busca do encierro ideal na festa de San Fermín (São Firmino) em Pamplona, no norte da Espanha, começa pela negativa. Se beber não dirija? Então, se beber ou se drogar, não corra na frente de um touro bravo. Regra de ouro. Não arrisque a única vida que você tem – você não é gato, coitado – brincando de roleta russa com seis monstrengos de 600 quilos, seis feras – lindas, mas feras.

A dose suplementar de valentia e euforia que o álcool ou as drogas oferecem é proporcional à absoluta perda de reflexos.

Se a polícia não detectar o seu estado lamentável, colabore, dê um pouco de você mesmo à vida e seja sábio: tente conservá-la. Vá para casa, ou a algum lugar onde possa continuar rendendo homenagens a Baco.

Praça da Prefeitura em Pamplona.
Praça da Prefeitura em Pamplona. EFE

2. Seu lugar.

O ideal é chegar sabendo perfeitamente onde você quer começar a correr. A dúvida é sempre uma péssima conselheira, mas ainda mais nesses momentos delicados. Se você já sabe onde, coloque-se naquele que considera ser o seu ponto ideal. Se não, escolha um lugar, aposte nele e não saia mais de lá. Onde você vai conseguir parar de correr é algo que não há como saber, é inútil, nem faça planos. Mas tenha certeza de que, a não ser que seja um corredor experimentado ou um talento nato, não serão mais de 50 metros.

3. A chegada

Ocupe seu lugar no percurso do encierro com suficiente antecedência (meia hora basta se você tiver uma ideia clara, ou seja, às 7h30), depois de ter dormido bem, acordado lá pelas 6h, feito um café da manhã reforçado e ido ao banheiro. É melhor ir ao encierro com os deveres fisiológicos feitos, e a evacuação prévia de substâncias é básica. Você verá que muita gente vai ao evento carregando um jornal enrolado. Os motivos são basicamente dois: compraram para olhar as fotos do encierro da véspera, mas também pode ser útil para chamar a atenção do touro e guiá-lo pelo trajeto, embora seja um costume em desuso.

'Encierro' em Pamplona.
'Encierro' em Pamplona. EFE

4. Trajes

Tênis, evidentemente. Nada de sapatos sociais, chinelos ou alpargatas. Apesar de a coisa ter melhorado bastante com a aplicação de produtos antiderrapantes, é fácil escorregar, e ainda mais se tiver chovido na noite anterior. E nem pense em correr descalço, como se fosse um Abebe Bikila da vida. Primeiro porque é proibido. Segundo que você estaria fora do seu juízo. Não é brincadeira: vi idiotas desses duas vezes. E outra coisa, a meio caminho entre o conselho e o pedido: procura se vestir de branco com lenço vermelho (mesmo que o lenço às vezes possa enganchar em algo), não colabore com a salada cada vez mais brega protagonizada por essa legião de uniformes futebolísticos de toda a Espanha, bonés e camisetas estampadas roxas, amarelo-berrante e verde-fosforescente.

5. Forma física e aquecimento

Dedique pelo menos 10 a 15 minutos aos alongamentos, sobretudo das pernas, mas também de braços, pescoço e quadris. É possível que nesses momentos você esteja assinando o seu seguro de vida. Claro que o corredor ideal é o que faz exercício com regularidade e mantém uma forma física boa ou aceitável. Mas, se você não pertence a esse clube, porque é atleta de sofá, tem barriga de cerveja ou qualquer outro motivo relacionado à vida sedentária e à flacidez em geral, tome cuidado. O melhor seria não se arriscar, mas, se você decidir ir mesmo assim, submeta-se pelo menos ao minitreino descrito acima. Se não souber fazer alongamentos, basta imitar as pessoas que o cercam na rua.

Decálogo para o San Fermín (em busca da perfeição ao correr dos touros)
EFE

6. Segurança e confiança

Se o corredor não estiver 100% seguro de querer participar do encierro, se sentir duas ou três vezes antes do rojão de partida a tentação de ir para casa, é melhor que vá mesmo. A praticamente qualquer momento é possível passar por baixo das grades e sair tranquilamente do percurso. Seria uma sábia decisão. Nada pior do que alguém vacilante no percurso do encierro. Coloca em perigo a si mesmo e aos demais. Isso acontece com os novatos (sobretudo), mas também com os mais experientes. A razão básica de alguém sair correndo pelas ruas na frente de touros bravos – algo equivalente a mergulhar com tubarões – é o deleite irracional da brutal descarga de adrenalina. Mas não há prazer que valha isso, mesmo que seja do tipo masoquista, se você não estiver lá integralmente. Nesse caso, o desfrute se transforma em pavor, e as pernas travam.

7. Olhar e começar a corrida

É preciso se posicionar no lugar escolhido e esperar. Provavelmente você fará isso dando saltos, um pouco para continuar aquecendo, e um pouco porque está apavorado com a perspectiva de seis bestas e 12 chifres pontiagudos se aproximando de você em velocidade de cruzeiro. O auge da tensão será ao ouvir, pontualmente às 8h, o rojão que marca a saída dos touros dos currais de Santo Domingo. Tente se posicionar de modo a ser capaz de enxergar a manada de longe, a pelo menos 50 metros, e, quando o touro da frente estiver a essa distância comece a correr, tentando ficar no meio da rua. Não espere que cheguem perto para começar a correr: eles passarão na sua frente antes que você consiga reagir. Só quando se corre um encierro se tem noção de como corre um touro bravo.

Rua Estafeta.
Rua Estafeta. EFE

É preciso ter o animal visualmente controlado o tempo todo. Quando você estiver em plena corrida, não deixe de olhar para trás, para a direita e para a esquerda (e para frente, claro, sobretudo para evitar tropeções em corredores caídos). Falando assim, parece bem difícil. E é mesmo.

8. Correndo

Inevitavelmente, a tensão e o medo (você poderá experimentar pela primeira vez a sensação de não ter saliva para engolir; não é um clichê, é a verdade) o levarão a dar cotoveladas e empurrões. A solidariedade entre os corredores é crucial, mas colocá-la em prática não é algo simples. Tente correr rápido, reto e, como já dissemos, pelo meio da rua. Você também pode optar por penetrar no meio da manada em plena corrida, quando ela está desagregada. É o que fazem muitos dos melhores corredores do encierro. Se decidir fazer isso, aja com decisão, não hesite um só segundo e tente acompanhar um touro... Vasta missão!

9. Atitude durante o encierro

Nunca encoste nos touros, muito menos nos chifres ou na cabeça. Frequentemente, você se verá correndo paralelamente a um deles, e não terá outra opção senão se apoiar nas ancas do animal. Tente que isso seja o mais breve possível, não se aproveite do tranco do touro para continuar correndo grudado ou apoiado nele. É categoricamente proibido. Você poderá levar um tremendo golpe de vara de algum dos pastores, e bem feito para você. Mas, sobretudo, desafiar um touro lateralmente – especialmente quando se perdeu da manada e está desorientado – é uma tentativa de suicídio para você e um exercício temerário de homicídio para os demais. Só agarre o touro pelo rabo por um desses dois motivos: para salvar a vida de um corredor caído que estiver prestes a ser atacado, ou para corrigir a trajetória de um touro que tenta voltar ao curral. E isso só vale para quem souber bem o que está fazendo.

Decálogo para o San Fermín (em busca da perfeição ao correr dos touros)
AFP

10. Pontos críticos do percurso

Cuesta de Santo Domingo. O trecho inicial do encierro, dos currais até a (Plaza del Ayuntamiento (Praça da Prefeitura). São 280 metros, sem vãos para se proteger nem cercas por onde escapar, e um aclive que alcança os 10%. Os touros vão a toda velocidade: estão descansados, e sua privilegiada anatomia, com as patas dianteiras muito mais curtas, os transformam em bólidos. Só para corredores muito experientes.

Ayuntamiento-Mercaderes. A Plaza del Ayuntamiento (prefeitura) é atravessada na diagonal, e depois há uma traiçoeira curva à esquerda que entra pela rua Mercaderes. Cem metros, e também muito perigoso.

Curva de Estafeta. O ponto mais emblemático do encierro. Antes os touros investiam contra a cerca devido à curva de 90 graus que precisam fazer para a direita. Isso melhorou com os produtos antiderrapantes aplicados sobre o pavimento. É proibido escapar pela esquerda nesta curva; é preciso fazê-la com um giro rápido e seco para a direita.

Calle Estafeta. São 300 metros de calçadão com um desnível de 2%. É o lugar com o maior volume de participantes. Também o melhor para estrear no encierro, por sua visibilidade e espaço. Um ponto situado 50 ou 60 metros depois da curva de Estafeta é uma boa opção para começar a corrida.

Telefónica-beco de acesso à arena de touradas. Um trecho perigosíssimo, onde quase sempre há percalços. Por outro lado, os touros aqui já estão bem mais lentos, e há grades dos dois lados, por isso há como escapar em caso de apuro. Mas há pouco espaço para tantos corredores, e tudo acaba no beco de acesso à arena, um perfeito funil de 25 x 3,5 metros, no qual aglomerações perigosas costumam se formar.

A arena. Se você entrou correndo na arena à frente dos touros, saia para a esquerda ou a direita e retire-se. Nem pense em seguir os touros e muito menos desafiá-los.

10 + 1. Um epílogo

Nada em todo este decálogo é científico ou demonstrável, muito pelo contrário. O touro bravo é um animal extraordinário, de comportamento indecifrável, frequentemente errático e imprevisível, que pode ferir ou matar a qualquer momento. O número de corredores é enorme, e esse é o maior perigo do encierro. Tudo ocorre num piscar de olhos. Se você for crente, se encomende ao mantinho da imagem de são Firmino. Se não for crente, se encomende ao mantinho da imagem de são Firmino.

Boa sorte.

'Chupinazo' em Pamplona.
'Chupinazo' em Pamplona. AFP

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