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A festa da verdade

O festival brasileiro 'É Tudo Verdade' faz 20 anos celebrando Welles, Carvalho e Coutinho

Coutinho é um dos entrevistadores de Silvana no doc 'Sete visitas'.
Coutinho é um dos entrevistadores de Silvana no doc 'Sete visitas'.

Duas décadas não é pouco tempo para ninguém, e menos ainda para um festival de cinema que põe um gênero marginal como o documentário na tela grande e no centro do debate – sobretudo no Brasil. É com esse espírito que o É Tudo Verdade, o maior festival de documentários do Brasil e da América Latina, celebra sua 20a edição, que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro de 9 a 19 de abril e depois viaja a Santos, Belo Horizonte e Brasília.

Para essa festa da verdade que pulsa diante e detrás das câmaras, foram selecionados 109 longas e curtas-metragens de 31 países (18 deles em pré-estreia mundial) entre os 1.300 títulos inscritos. Os filmes se dividem nas diferentes mostras do evento, que este ano presta homenagem ao centenário de Orson Welles, mais-que-notável ficcionista que inspirou o nome do festival com seu It’s all true – mistura inacabada de três histórias latino-americanas, das quais duas, Carnaval e Jangadeiros, foram dirigidas por Welles no Brasil em 1942. Também reverencia o cineasta paraibano Vladimir Carvalho, grande documentarista brasileiro que completou 80 anos em janeiro, e o mestre do documentário nacional, Eduardo Coutinho, morto no ano passado. Todos eles – Welles, Carvalho e Coutinho – têm, portanto, filmes seus espalhados pela programação.

A festa da verdade

Últimas conversas, longa que Coutinho não pôde terminar, está tanto na abertura paulistana, como na carioca, indicando o tom de festejo desta edição. “João Moreira Salles, responsável pela produção e finalização da obra, nos regalou o presente da estreia do filme póstumo de Coutinho. O mínimo que poderíamos fazer era exibi-lo em nossa sessão inaugural”, diz o diretor do É Tudo Verdade, Amir Labaki. Reunindo depoimentos de adolescentes cariocas sobre temas cotidianos e variados, do jeito ‘papeado’ que só Coutinho sabe inspirar, Últimas conversas é documentário em estado bruto, talvez um dos filmes mais puros do realizador.

Outro presente para quem é fã do gênero é a retrospectiva Vinte aos pares, que repassa a história do festival ao colocar, lado a lado, dois títulos de edições anteriores que elucidam um mesmo universo. É o caso de Por que lutamos (Estados Unidos, 2005), de Eugene Jarecki, e Cinco câmeras quebradas (França, 2011), de Guy David e Emad Bornat – o primeiro sobre a extensão da indústria militar na atualidade, e o segundo sobre um morador de uma cidade da Cisjordânia que protesta contra um muro construído lá por Israel.

Entre as novidades, são especialmente apetitosos filmes como Sete visitas, de Douglas Duarte, na Competição Brasileira de Longas e Médias-Metragens, que põe em foco a arte de fazer (e receber) perguntas criando um jogo de seis entrevistas à mesma entrevistada (uma delas é feita por Coutinho); O que houve, Sta. Simone?, em que Liz Garbus conta a trajetória da cantora e ativista do movimento negro americano Nina Simone, na Competição Internacional de Longas e Médias-Metragens (onde, por sinal, há recorde de latino-americanos este ano: cinco títulos); e Cidadãoquatro (Citizenfour), de Laura Poitras, documentário sobre Edward Snowden que venceu o Oscar 2015 em sua categoria, na Mostra Informativa.

Falando em Oscar, o É Tudo Verdade é agora um qualifying festival para ele, o troféu máximo do cinema nos dias de hoje. Em princípio, isso só significa que os curtas-metragens premiados aqui se qualificam automaticamente para serem analisados pelos críticos da Academia americana. Mas, para quem reparar bem, é mais um sinal de que o documentário tem hoje um templo no país, construído ao longo dos últimos 20 anos. E que ele é respeitado no mundo, assim como o documentário nacional.

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