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A oposição venezuelana mostra força nas ruas apesar das divergências na liderança

Os desencontros entre os líderes da oposição a Nicolás Maduro não minam as manifestações em Caracas e outras cidades

Maduro apela aos militares para resolver a crise

Um manifestante na passeata deste domingo em Caracas.
Um manifestante na passeata deste domingo em Caracas. EFE

Uma numerosa manifestação de oposição em Caracas e outras cidades do país mostrou, neste domingo, que os setores contrários ao governo de Nicolás Maduro ainda não estão cansados, apesar de os protestos estarem tomando as ruas há mais de um mês. Quase simultaneamente, no entanto, expuseram por meio da mídia as desavenças, cada vez mais abertas, que separam os seus líderes.

Se no sábado o oficialismo protestou - contra qualquer resquício de institucionalidade que restasse nas forças armadas - aos militares, no dia seguinte a oposição venezuelana convocou às ruas os seus seguidores com um motivo que, se os fatos corresponderem à realidade, aproxima-se perigosamente da xenofobia: chamou a protestar contra a "ingerência cubana".

Do oeste caraquenho, dezenas de milhares de pessoas caminharam rumo ao aeroporto de La Carlota. O destino tinha um significado. Esse aeroporto, em pleno coração do vale de Caracas, mas prestes a virar um enorme parque público, serve tanto para a aviação civil quanto como base da Força Aérea. A base foi quartel-general e retaguarda das equipes antimotins da Guarda Nacional durante quatro semanas de conflitos e dura repressão aos manifestantes.

No fim, os mesmos soldados da GN impediram que a coluna de manifestantes aproximassem-se de La Carlota, apesar de que, desta vez, não houve desordem, nem violência.

Na marcha, havia inúmeros cartazes de confecção caseira com frases contrárias à tutela cubana sobre o governo venezuelano. "Não desejamos uma ditadura como a cubana", "De Cuba, apenas a música" e até uma paráfrase de palavras célebres de Porfirio Diáz: "Pobre Venezuela, tão longe de Deus e tão próxima de Cuba". Entre todas, no entanto, destacava-se onipresente etiqueta das redes sociais, agora impressa em camisetas e rabiscada em cartazes, da campanha de oposição conhecida como "A saída": "O que se cansa, perde".

De fato, a convocação, ainda que atendida por bastante gente, pareceu ter sido realizada por apenas parte da oposição, a que repete a palavra "rua" como um mantra e que sustenta que não há tempo de esperar que o calendário eleitoral seja cumprido para desalojar o chavismo do poder.

O caminhão, que fazia as vezes de palco e de guia para os manifestantes, foi forrado com uma foto de Leopoldo López, líder do partido Voluntad Popular e dirigente desse movimento, agora prisioneiro de uma prisão militar, nos arredores de Caracas.

Dessa plataforma, Lilian Tintori, esposa de López, falou aos que se reuniram para marchar a partir de Chacao, bastião das forças de oposição. Recomendou que todos lessem a entrevista publicada, neste domingo, pelo diário El Universal, de Caracas, na qual López, da sua cela, responde a um questionário por escrito. "Ali, a mensagem de Leopoldo está muito clara", dizia Tintori pelo megafone, uma espécie de leitura guiada. "Temos que perseverar, não podemos deixar as ruas".

Na entrevista, o ex-prefeito de Chacao reforça sua convicção de que fez o certo ao chamar o povo a sair às ruas. Pergunta-se, inclusive, se não o fez muito tarde. E sublinhou que "estão errados aqueles que pensam que o regime vai cair e vacilar apenas pela situação econômica. Somos um espelho de Cuba. Quanto mais vamos esperar? Cinquenta anos? Já se foram quinze".

A mensagem não foi uma garrafa fechada jogada ao mar, mas teve um destino muito específico: o ex-candidato presidencial e governador de Miranda, Henrique Capriles Radonski, que defendia a tese, dentro da oposição, de aguardar que a crise econômica mostrasse todo o seu potencial para, apenas então, usar esse mal-estar e recrutar os setores populares descontentes e não mobilizar o eleitorado opositor de sempre. Inclusive, de dentro das duras condições da prisão militar de Ramo Verde, onde está preso há duas semanas, López conseguiu enviar um "abraço de luta pela Venezuela", uma evidência de que o sangue de uma possível cisão ainda não chegou ao rio.

No entanto, enquanto López se mostra um paladino desde a sua prisão, para o desespero de seus seguidores, e quase ao mesmo tempo em que circulava o jornal com a entrevista, em um canal de televisão, Henrique Capriles admitia que mantém contato com o presidente Maduro para participar "nas próximas horas" de um debate político com o herdeiro de Hugo Chávez.

Há duas semanas, Maduro está convocando uma muito incompleta "Conferência Nacional de Paz", para a qual os porta-vozes da opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) estão negando os convites. As sessões estão sendo transmitidas ao vivo pelo sistema de mídia do governo, mas acabam parecendo maratonas verbais que apenas servem para passar a impressão, frente às câmeras, de que o governo está aberto ao diálogo.

O anúncio de Capriles é contraditório em relação à disposição da ala radical da oposição de aceitar um diálogo com o governo que, sustentam seus líderes, nas atuais circunstâncias serviria apenas para legitimar um governo cambaleante.

"O diálogo não é um show de televisão. Não vamos nos prestar a um desfile", disse Capriles sobre isso, "mas creio que seria um erro não abrir um espaço para decidirmos as coisas às claras; isso eu creio que tem muito mais valor; que o país veja um debate de ideias".

Antecipando-se às críticas que, certamente, choveram dos setores mais rebeldes da oposição, frente ao que parece uma concessão ao governo difícil de explicar, o duas vezes candidato presidencial disse, sem usar nomes, que "há extremistas no lado da oposição que se entendem (com o governo) (...), quase têm um pacto, precisam um do outro, os extremistas se alimentam".

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